quinta-feira, 20 de setembro de 2012

literatura do não


Talvez fosse necessário dizer algo mais sobre isso, sobre o não escrever. Muita gente me pergunta isso, eu me pergunto. E perguntar-me por que não escrevo inevitavelmente desemboca em outra inquisição muito mais inquietante: por que escrevi? Afinal de contas, o normal é ler. Minhas respostas favoritas são duas. Uma, que minha poesia consistiu - sem que eu soubesse - em uma tentativa de inventar uma identidade para mim; inventada, e assumida, já não tenho vontade de colocar-me inteiro em cada poema, que era o que me apaixonava quando os escrevia. Outra, que tudo foi um equívoco: eu pensava que queria ser poeta, mas no fundo queria ser poema. E em parte, na pior parte, eu consegui isso; como qualquer poema medianamente bem-feito, agora careço de liberdade interior, sou todo necessidade e submissão interna a esse atormentado tirano, a esse Big Brother insone, onisciente e ubíquo: Eu. Metade Caliban, metade Narciso, temo-o sobretudo quando o escuro pergunta-me junto a uma sacada aberta: 'Que faz um rapaz de 1950 como você em um ano indiferente como este?' All the rest is silence. (E. Vila-Matas citando Jaime gil de Biedma, Bartleby e companhia)

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Inverossímil

Vivo tão pouco que tendo a imaginar que não morrerei. Parece inverossímil que uma vida humana se reduza a tão pouco. (M. Houellebecq, Extensão do domínio da luta)

terça-feira, 1 de maio de 2012

A revolta segundo Foucault


As insurreições pertencem a história. Mas de certa forma, lhes escapam. O movimento com que só um homem, um grupo, uma minoria ou todo um povo diz: "Não obedeço mais", e joga na cara de um poder que ele considera injusto o risco de sua vida - esse movimento me parece irredutível. Porque nenhum poder é capaz de torná-lo absolutamente impossível (...) E porque o homem que se rebela é em definitivo sem explicação, é preciso um dilaceramento que interrompa o fio da história e suas longas cadeias de razões, para que um homem possa, 'realmente', preferir o risco da morte à certeza de ter de obedecer (...)

Se as sociedades se mantém e vivem, isto é,  se os seus poderes não são 'absolutamente absolutos', é porque, por trás de todas as aceitações e coerções, mais além das ameaças, violências e persuasões, há a possibilidade desse momento em que nada mais se permuta na vida, em que os poderes nada mais podem e no qual, na presença dos patíbulos e das metralhadoras, os homens se insurgem (...)

Ninguém tem o direito de dizer: 'Revoltem-se por mim, trata-se da libertação final de todo homem'. Mas não concordo com aquele que dissesse: 'Inútil se insurgir, sempre será a mesma coisa'. Não se impõe a lei a quem arrisca a sua vida diante de um poder. Há ou não motivo para se revoltar? Deixemos em aberto a questão. Insurgir-se é um fato; é por isso que a subjetividade (não a dos grandes homens, mas a de qualquer um)  introduz na história e lhe dá o seu alento. Um delinquente arrisca sua vida contra castigos abusivos; um louco não suporta mais estar preso e decaído; um povo recusa o regime que o oprime. Isso não torna o primeiro inocente, não cura o outro, e não garante ao terceiro os dias prometidos. Ninguém é obrigado a achar que aquelas vozes confusas cantam melhor do que as outras e falam da essência do verdadeiro.Basta que elas existam e que tenham contra elas tudo o que se obstina em fazê-las calar, para que faça sentido escutá-las e buscar o que elas querem dizer. Questão de moral? Talvez. Questão de realidade, certamente. Todas as desilusões da história de nada valem: é por existirem tais vozes que o tempo dos homens não tem a forma da evolução, mas justamente a da 'história'. (Foucault, É inútil revoltar-se?)

A natureza humana segundo Hannah Arendt


Se existisse tal natureza humana, seria um fenômeno natural, e, ao se chamar o comportamento de acordo com ela de 'humano', estar-se-ia afirmando que o comportamento humano e o comportamento natural são um único e mesmo comportamento. (Hannah Arendt, Homens em tempos sombrios)

segunda-feira, 30 de abril de 2012

O riso segundo Michel Houellebecq


o que eu não conseguia mais suportar era o riso, o riso em si mesmo, essa súbita e violenta distorção dos traços que deformam a face humana, que num instante a despoja de toda dignidade. Se o homem ri, se é o único, no reino animal, a exibir essa atroz deformação facial, é também porque é o único, superando o egoísmo da natureza animal, a ter atingido o estágio infernal e supremo da crueldade. (Michel Houellebecq, A possibilidade de uma ilha)

a instalação de Vincent

ele realmente trabalhara no branco sobre o branco, e não havia mais nenhuma música, apenas alguns ligeiros tremores, como vibrações atmosféricas irregulares. Eu tinha a impressão de me mover no interior de um espaço lácteo,  isotrópico, que às vezes se condensava subitamente, em microformações granulosas - aproximando-me, distinguia montanhas, vales, paisagens inteiras que instantaneamente se emaranhavam e desapareciam, e o cenário voltava a mergulhar numa homogeneidade difusa, entrecortada pela oscilação de força. Estranhamente eu não via mais minhas mãos, nem parte alguma do meu corpo (...) Eu não ouvia sequer minha própria respiração, e compreendi então que me tornara o espaço; eu era o universo e era a existência fenomênica, as microestruturas faiscantes que apareciam, congelavam-se e depois se dissolviam no espaço faziam parte de mim mesmo, e eu sentia minhas, produzindo-se no interior do meu corpo, cada uma de suas aparições e cada uma de suas cessações. Fui então tomado por um intenso desejo de desaparecer, de derreter num nada luminoso, ativo, vibrante de potencialidades perpétuas; a luminosidade voltou a cegar, o espaço ao meu redor pareceu explodir e se difratar em parcelas de luz, mas não se tratava de um espaço no sentido habitual do termo, comportava dimensões múltiplas e todo outro tipo de percepção desaparecera - esse espaço não continha, no sentido habitual do termo, nada. (Michel houellebecq, A possibilidade de uma ilha)

sábado, 10 de março de 2012

Identidade

meu rosto diante de nós mais e mais fora de meu próprio controle enquanto eu via no rosto gêmeo dele o que todo moleque melado de pirulito deve ver na galeria de espelhos do parque de diversões - a grosseira e impiedosa identidade (...) sabendo sem olhar que o rosto de meu gêmeo mostraria a mesma coisa (...) em um espelho que eu não podia conhecer nem me sentir fora dele. (David Foster Wallace, Breves entrevistas com homens hediondos)