Enquanto ele amaciava com claras de ovo os seios eréteis de Amaranta Úrsula, ou suavizava com gordura de coco as suas coxas elásticas e o seu ventre de pêssego, ela brincava de boneca com a portentosa criatura de Aureliano e pintava-lhe olhos de palhaço com batom e bigodes de turco com lápis de sobrancelhas e armava-lhe laços de organza e chapeuzinhos de papel prateado, Uma noite se lambuzaram dos pés a cabeça com pêssegos em calda, lamberam-se como cães e se amaram como loucos no chão da varanda, e foram acordados por uma torrente de formigas carnívoras que se dispunham a devorá-los vivos.
García Márquez, Cem anos de solidão. P. 355.
O Prazer do Texto
fragmentos literários e filosóficos.
quinta-feira, 10 de setembro de 2015
domingo, 30 de agosto de 2015
Nada
não narrarei a história
não descreverei o cenário
não contarei o tesouro de sensações
não desfiarei causas
nem nada que ofenda o acaso
o deus dos encontros
Paula Glenadel, Quase uma arte. P. 60.
não descreverei o cenário
não contarei o tesouro de sensações
não desfiarei causas
nem nada que ofenda o acaso
o deus dos encontros
Paula Glenadel, Quase uma arte. P. 60.
Planos
algumas sementes da Austrália
prevêem o fogo
e se preparam para sobreviver
o fogo está em seus planos,
se é que os tem
ele vem abrí-las para que germinem
na floresta devastada
então podem crescer sem disputar
o sol com as enormes árvores
e a terra com as grossas raízes
isto me disse alguém uma vez
era suíço
estava leibniziano
Paula Glenadel, Quase uma arte. P. 57.
prevêem o fogo
e se preparam para sobreviver
o fogo está em seus planos,
se é que os tem
ele vem abrí-las para que germinem
na floresta devastada
então podem crescer sem disputar
o sol com as enormes árvores
e a terra com as grossas raízes
isto me disse alguém uma vez
era suíço
estava leibniziano
Paula Glenadel, Quase uma arte. P. 57.
Visto Numa panela
E se as pessoas fossem macarrões, penne, por exemplo, onde elas se juntam ficaria um lado duro, na interface dos dois. Mas quem tem coragem de separar dois penne rodopiando na água fervente? É preciso não ter pena das coisas.
Paula Glenadel, Quase uma arte. P. 31.
sábado, 22 de agosto de 2015
Potência ciclônica
Uma tarde, quando todos dormiam a sesta, não aguentou mais e foi ao seu quarto. Encontrou-o de cuecas, acordado, estendido na rede que pendurara nos ganchos com cabos de amarrar navio. Impressionou-a tanto a sua enorme nudez sarapintada que teve o ímpeto de retroceder. "Perdão", se desculpou. "Eu não sabia que você estava aqui." Mas abaixou o tom de voz para não acordar ninguém. "Vem cá", disse ele. Rebeca obedeceu. Deteve-se junto da rede, suando gelo, sentindo que se formavam nós nas tripas enquanto José Arcadio lhe acariciava os tornozelos com a polpa dos dedos, e depois a barriga das pernas e depois as coxas, murmurando: "ah, maninha; a maninha." Ela teve que fazer um esforço sobrenatural para não morrer quando uma potência ciclônica, assombrosamente regulada, levantou-a pela cintura e despojou-a de sua intimidade com três patadas, e esquartejou-a como a um passarinho. Conseguiu dar graças a Deus por ter nascido, antes de perder a consciência no prazer inconcebível daquela dor insuportável, chapinhando no lago fumegante da rede que absorveu como um mata-borrão a explosão de seu sangue.
G. García Márquez, Cem anos de solidão
quinta-feira, 26 de março de 2015
quinta-feira, 25 de dezembro de 2014
Até
então, para mim, paredes eram feitas de livros, sem o seu suporte
desabariam casas como a minha, que até no banheiro e na cozinha tinha
estantes do teto ao chão. E era nos livros que eu me escorava, desde
muito pequeno, nos momentos de perigo real ou imaginário, como ainda
hoje nas alturas grudo as costas na parede ao sentir vertigem. E quando
não havia ninguém por perto eu passava horas a andar de lado rente às
estantes, sentia certo prazer em roçar a espinha de livro em livro.
também gostava de esfregar as bochechas nas lombadas de couro de uma
coleção que, mais tarde, quando já me batiam no peito identifiquei como
os sermões do padre António Vieira. e, numa prateleira acima dos
sermões, li aos quatro anos de idade minha primeira palavra: Gogol. Até
os nove, dez, onze anos, até o nível da quarta ou quinta prateleira,
durante toda minha infância mantive essa ligação sensual com os livros.
Chico Buarque, O irmão alemão
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