Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.
Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão - felizes! - num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.
Morrer sem deixar porventura uma alma errante...
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?
Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento,
Em nenhuma epiderme.
Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: "Quem foi?..."
Morrer mais completamente ainda,
Sem deixar sequer esse nome.
Manuel Bandeira, poema A Morte Absoluta - 50 poemas escolhidos pelo autor
domingo, 18 de novembro de 2012
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
tempestade de areia
Em certas ocasiões o destino se assemelha a uma pequena tempestade de areia, cujo curso sempre se altera. Você procura fugir dela e orienta seus passos noutra direção. Mas então, a tempestade também muda de direção e o segue. Você muda mais uma vez o seu rumo. A tempestade faz o mesmo e o acompanha. As mudanças se repetem muitas e muitas vezes, como num balé macabro que se dança com a deusa da morte antes do alvorecer. Isso acontece porque a tempestade não é algo independente, vindo de um local distante. A tempestade é você mesmo. Algo que existe em seu íntimo. Portanto, o único recurso que lhe resta é se conformar e corajosamente pôr um pé dentro dela, tapar olhos e ouvidos com firmeza a fim de evitar que se encham de areia e atravessá-la passo a passo até emergir do outro lado. É muito provável que lá dentro não haja sol, nem lua, nem morte e, em determinados momentos, nem hora certa. O que há são apenas grãos de areia finos e brancos como osso moído dançando vertiginosamente no espaço. Imagine uma tempestade de areia desse jeito.
Haruki Murakami, Kafka à beira mar
Haruki Murakami, Kafka à beira mar
domingo, 21 de outubro de 2012
trecho da carta de lord chandos
Como, uma vez, vi numa lente de aumento um pedaço da pele de meu dedo mindinho assemelhando-se a um campo rachado cheio de sulcos e crateras, assim via agora os homens e as ações. Não conseguia mais apreendê-los com o olhar simplificado do hábito. Tudo desintegrava-se em pedaços; pedaços em mais pedaços e nada mais conseguia ser abarcado por um conceito. As palavras isoladas inundavam-me; aglutinavam-se em olhos que me fitavam e para os quais via-me obrigado também a fitar: turbilhões, são as palavras. Sentia vertigens ao olhar para elas, girando sem parar e através das quais só se consegue chegar no vazio.
Hugo Von Hofmannsthal, Uma carta
quarta-feira, 10 de outubro de 2012
Todo o vento dessa manhã (agora soprava de leve, e não
fazia frio) havia passado por seu cabelo louro que recortava seu rosto branco e
sombrio - duas palavras injustas - e deixava o mundo de pé e horrivelmente
sozinho diante de seus olhos negros, seus olhos que caíam sobre as coisas como
duas águias, dois saltos no vazio, duas rajadas de lodo verde. Não descrevo
nada, na verdade tento entender. E disse duas rajadas de lodo verde.
(Cortázar, As babas do diabo)
Gramática (im)possível
Nunca se saberá como isto deve ser contado, se na primeira ou na segunda pessoa, usando a terceira do plural ou inventando constantemente formas que não servirão para nada. Se fosse possível dizer: eu viram subir a lua, ou: em mim nos dói o fundo dos olhos,e principalmente assim: tu mulher loura eram as nuvens que continuam correndo diante de meus teus seus nossos vossos seus rostos. Que diabo.
(J. Cortázar, As babas do diabo)
(J. Cortázar, As babas do diabo)
Uma forma de combater o nada
Entre
as muitas maneiras de se combater o nada, uma das melhores é tirar fotografias,
atividade que deveria ser ensinada desde muito cedo às crianças, pois exige
disciplina, educação estética, bom olho e dedos seguros.
(J. Cortázar, As babas do diabo)
sábado, 29 de setembro de 2012
liberdade e literatura
Se chamamos de liberdade não só a potência de subtrair-se ao poder, mas também e sobretudo a de não submeter ninguém, não pode então haver liberdade fora da linguagem. Infelizmente a linguagem humana é sem exterior: é um lugar fechado. Só se pode sair dela pelo preço do impossível: pela singularidade mística, tal como a descreve kiekegaard (...) ou então pelo amen nietzschiano, que é como uma sacudida jubilatória dada ao servilismo da língua. Mas a nós, que não somos nem cavaleiros da fé nem super-homens, só resta por assim dizer, trapacear com a língua, trapacear a língua Essa trapaça salutar, essa esquiva, esse logro magnífico que permite ouvir a língua fora do poder, no esplendor de uma revolução permanente da linguagem, eu a chamo, quanto a mim: literatura.
(Roland Barthes, Aula)
(Roland Barthes, Aula)
o fascismo da língua
O poder é o parasita de um organismo trans-social, ligado à história inteira do homem, e não somente à sua história política, histórica. Esse objeto em que se inscreve o poder, desde toda eternidade humana, é: a linguagem - ou para ser mais preciso, sua expressão obrigatória: a língua.
A linguagem é uma legislação, a língua é seu código. Não vemos o poder que reside na língua, porque esquecemos que toda língua é uma classificação, e que toda classificação é opressiva: ordo quer dizer, ao mesmo tempo, repartição e cominação. Jákobson mostrou que um idioma se define menos pelo que ele permite dizer, do que por aquilo que ele obriga a dizer (...) Assim, por sua própria estrutura, a língua implica uma relação fatal de alienação. Falar, e com maior razão discorrer, não é comunicar, como se repete com demasiada frequência, é sujeitar (...)
Mas a língua, como desempenho de toda linguagem, não é nem reacionária, nem progressista; ela é simplesmente: fascista; pois o fascismo não é impedir de dizer, é obrigar a dizer.
Assim que ela é proferida, mesmo que na intimidade mais profunda do sujeito, a língua entra a serviço de um poder.
(Roland Barthes, Aula)
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
O diálogo entre o sim e o não
Não:
Tudo já foi dito - sobre o que era importante e simples de dizer - nos milênios em que os homens passaram pensando e se esforçando. Já foi dito tudo sobre o que era profundo em relação à elevação do ponto de vista, isto é, abrangente e extenso ao mesmo tempo. Hoje em dia, só nos cabe repetir. Só restam alguns poucos detalhes ínfimos ainda inexplorados. Ao homem atual só resta preencher os vazios com uma algaravia de detalhes.
Sim:
Sim? Que tudo já foi dito, que não há nada a dizer, sabe-se, percebe-se. Mas o que menos se percebe é que essa evidência confere à linguagem um estatuto estranho, até inquietante, que a redime. As palavras salvaram-se, afinal, deixaram de viver.
(Marcel Maniere citado por Vila-Matas, Bartleby e companhia)
palavra-(caos)
O caos demoníaco de cada palavra isolada, de cada conhecimento, de cada coisa (...) Oh, cada um está ameaçado pelas palavras indomáveis e seus tentáculos, pela ramagem das palavras, pelas palavras de ramo que se enredando entre si o enredam, que crescem disparadas, cada uma para seu lado, e tornando a retorcerem-se umas nas outras, demoníacas em sua individualização, palavras que se entrelaçam na trama do mundo, na trama dos tempos, incompreensíveis e impenetráveis em sua rugiente mudez. (Hermann Broch citado por Vila-Matas, Bartleby e companhia)
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
literatura do não
Talvez fosse necessário dizer algo mais sobre isso, sobre o não escrever. Muita gente me pergunta isso, eu me pergunto. E perguntar-me por que não escrevo inevitavelmente desemboca em outra inquisição muito mais inquietante: por que escrevi? Afinal de contas, o normal é ler. Minhas respostas favoritas são duas. Uma, que minha poesia consistiu - sem que eu soubesse - em uma tentativa de inventar uma identidade para mim; inventada, e assumida, já não tenho vontade de colocar-me inteiro em cada poema, que era o que me apaixonava quando os escrevia. Outra, que tudo foi um equívoco: eu pensava que queria ser poeta, mas no fundo queria ser poema. E em parte, na pior parte, eu consegui isso; como qualquer poema medianamente bem-feito, agora careço de liberdade interior, sou todo necessidade e submissão interna a esse atormentado tirano, a esse Big Brother insone, onisciente e ubíquo: Eu. Metade Caliban, metade Narciso, temo-o sobretudo quando o escuro pergunta-me junto a uma sacada aberta: 'Que faz um rapaz de 1950 como você em um ano indiferente como este?' All the rest is silence. (E. Vila-Matas citando Jaime gil de Biedma, Bartleby e companhia)
sexta-feira, 18 de maio de 2012
Inverossímil
Vivo tão pouco que tendo a imaginar que não morrerei. Parece inverossímil que uma vida humana se reduza a tão pouco. (M. Houellebecq, Extensão do domínio da luta)
terça-feira, 1 de maio de 2012
A revolta segundo Foucault
As insurreições pertencem a história. Mas de certa forma, lhes escapam. O movimento com que só um homem, um grupo, uma minoria ou todo um povo diz: "Não obedeço mais", e joga na cara de um poder que ele considera injusto o risco de sua vida - esse movimento me parece irredutível. Porque nenhum poder é capaz de torná-lo absolutamente impossível (...) E porque o homem que se rebela é em definitivo sem explicação, é preciso um dilaceramento que interrompa o fio da história e suas longas cadeias de razões, para que um homem possa, 'realmente', preferir o risco da morte à certeza de ter de obedecer (...)
Se as sociedades se mantém e vivem, isto é, se os seus poderes não são 'absolutamente absolutos', é porque, por trás de todas as aceitações e coerções, mais além das ameaças, violências e persuasões, há a possibilidade desse momento em que nada mais se permuta na vida, em que os poderes nada mais podem e no qual, na presença dos patíbulos e das metralhadoras, os homens se insurgem (...)
Ninguém tem o direito de dizer: 'Revoltem-se por mim, trata-se da libertação final de todo homem'. Mas não concordo com aquele que dissesse: 'Inútil se insurgir, sempre será a mesma coisa'. Não se impõe a lei a quem arrisca a sua vida diante de um poder. Há ou não motivo para se revoltar? Deixemos em aberto a questão. Insurgir-se é um fato; é por isso que a subjetividade (não a dos grandes homens, mas a de qualquer um) introduz na história e lhe dá o seu alento. Um delinquente arrisca sua vida contra castigos abusivos; um louco não suporta mais estar preso e decaído; um povo recusa o regime que o oprime. Isso não torna o primeiro inocente, não cura o outro, e não garante ao terceiro os dias prometidos. Ninguém é obrigado a achar que aquelas vozes confusas cantam melhor do que as outras e falam da essência do verdadeiro.Basta que elas existam e que tenham contra elas tudo o que se obstina em fazê-las calar, para que faça sentido escutá-las e buscar o que elas querem dizer. Questão de moral? Talvez. Questão de realidade, certamente. Todas as desilusões da história de nada valem: é por existirem tais vozes que o tempo dos homens não tem a forma da evolução, mas justamente a da 'história'. (Foucault, É inútil revoltar-se?)
A natureza humana segundo Hannah Arendt
Se existisse tal natureza humana, seria um fenômeno natural, e, ao se chamar o comportamento de acordo com ela de 'humano', estar-se-ia afirmando que o comportamento humano e o comportamento natural são um único e mesmo comportamento. (Hannah Arendt, Homens em tempos sombrios)
segunda-feira, 30 de abril de 2012
O riso segundo Michel Houellebecq
o que eu não
conseguia mais suportar era o riso, o
riso em si mesmo, essa súbita e violenta distorção dos traços que deformam a
face humana, que num instante a despoja de toda dignidade. Se o homem ri, se é
o único, no reino animal, a exibir essa atroz deformação facial, é também
porque é o único, superando o egoísmo da natureza animal, a ter atingido o
estágio infernal e supremo da crueldade. (Michel Houellebecq, A possibilidade de uma ilha)
a instalação de Vincent
ele realmente trabalhara no branco sobre o branco, e não havia mais nenhuma música, apenas alguns ligeiros tremores, como vibrações atmosféricas irregulares. Eu tinha a impressão de me mover no interior de um espaço lácteo, isotrópico, que às vezes se condensava subitamente, em microformações granulosas - aproximando-me, distinguia montanhas, vales, paisagens inteiras que instantaneamente se emaranhavam e desapareciam, e o cenário voltava a mergulhar numa homogeneidade difusa, entrecortada pela oscilação de força. Estranhamente eu não via mais minhas mãos, nem parte alguma do meu corpo (...) Eu não ouvia sequer minha própria respiração, e compreendi então que me tornara o espaço; eu era o universo e era a existência fenomênica, as microestruturas faiscantes que apareciam, congelavam-se e depois se dissolviam no espaço faziam parte de mim mesmo, e eu sentia minhas, produzindo-se no interior do meu corpo, cada uma de suas aparições e cada uma de suas cessações. Fui então tomado por um intenso desejo de desaparecer, de derreter num nada luminoso, ativo, vibrante de potencialidades perpétuas; a luminosidade voltou a cegar, o espaço ao meu redor pareceu explodir e se difratar em parcelas de luz, mas não se tratava de um espaço no sentido habitual do termo, comportava dimensões múltiplas e todo outro tipo de percepção desaparecera - esse espaço não continha, no sentido habitual do termo, nada. (Michel houellebecq, A possibilidade de uma ilha)
sábado, 10 de março de 2012
Identidade
meu rosto diante de nós mais e mais fora de meu próprio controle enquanto eu via no rosto gêmeo dele o que todo moleque melado de pirulito deve ver na galeria de espelhos do parque de diversões - a grosseira e impiedosa identidade (...) sabendo sem olhar que o rosto de meu gêmeo mostraria a mesma coisa (...) em um espelho que eu não podia conhecer nem me sentir fora dele. (David Foster Wallace, Breves entrevistas com homens hediondos)
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
A filosofia e o poder
“Uma cômica amargura caracteriza esses filósofos ocidentais modernos: eles pensaram, eles próprios se pensaram segundo uma relação de oposição essencial ao poder e ao seu exercício ilimitado, mas o destino de seu pensamento fez com que, quanto mais eles eram escutados, mais o poder, mais as instituições políticas se impregnavam de seu pensamento, mais eles serviam para autorizar formas excessivas de poder. Isso foi afinal o tragicômico de Hegel transformado no regime bismarckiano; isso foi o tragicômico de Nietzsche, cujas obras completas foram presenteadas por Hitler a Mussolini (...) Mais ainda do que o apoio dogmático das religiões, a filosofia autentica poderes sem freio."
(Foucault, A filosofia analítica da política)
sábado, 18 de fevereiro de 2012
"Uma história radicalmente condensada da vida pós-industrial"
Quando foram apresentados, ele fez uma piada, esperando ser apreciado. Ela riu extremamente forte, esperando ser apreciada. Depois, cada um voltou para casa sozinho em seu carro, olhando direto para a frente, com a mesma contração no rosto.
O homem que apresentou os dois não gostava muito de nenhum deles, embora agisse como se gostasse, ansioso como estava para conservar boas relações a todo momento. Nunca se sabe, afinal, não é mesmo não é mesmo não é mesmo. (David Foster Wallace, Breves entrevistas com homens hediondos)
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
sobre o tempo
Fiquei olhando essa simplicidade. Pensei, certamente em voz alta: Isto é o mesmo de trinta anos atrás... Considerei essa data: época recente em outros países, mas já remota neste inconstante lado do mundo. Talvez um pássaro cantasse e senti por ele um carinho pequeno, do tamanho de um pássaro; mas o mais certo é que nesse já vertiginoso silêncio não houve outro ruído senão o também intemporal dos grilos. O fácil pensamento Estou em oitocentos e tanto deixou de ser umas quantas palavras aproximativas e se aprofundou na realidade. Senti-me morto, senti-me conhecedor abstrato do mundo: temor indefinido imbuído de ciência que é a melhor clareza da metafísica. Não, não acreditei ter remontado às presumíveis águas do Tempo; antes imaginei-me possuidor do sentido reticente ou ausente da inconcebível palavra eternidade. (Jorge Luis Borges, História da eternidade)
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