quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Até então, para mim, paredes eram feitas de livros, sem o seu suporte desabariam casas como a minha, que até no banheiro e na cozinha tinha estantes do teto ao chão. E era nos livros que eu me escorava, desde muito pequeno, nos momentos de perigo real ou imaginário, como ainda hoje nas alturas grudo as costas na parede ao sentir vertigem. E quando não havia ninguém por perto eu passava horas a andar de lado rente às estantes, sentia certo prazer em roçar a espinha de livro em livro. também gostava de esfregar as bochechas nas lombadas de couro de uma coleção que, mais tarde, quando já me batiam no peito identifiquei como os sermões do padre António Vieira. e, numa prateleira acima dos sermões, li aos quatro anos de idade minha primeira palavra: Gogol. Até os nove, dez, onze anos, até o nível da quarta ou quinta prateleira, durante toda minha infância mantive essa ligação sensual com os livros.

Chico Buarque, O irmão alemão
Às vezes parece
que estamos no centro da festa
No entanto
no centro da festa não há ninguém
No centro da festa está o vazio
Mas no centro do vazio há outra festa.



Roberto Juarroz

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Em que estás pensando? Em que pensas? Em quê?
Jamais sei o que pensas. Pensa."

     Penso que estamos no beco dos ratos
Onde os mortos seus ossos deixaram.

     "Que rumor é este?"
                                                  O vento sob a porta.
"E que rumor é este agora? Que anda a fazer o vento lá fora?"
              Nada, como sempre. Nada.
 
T. S. Eliot - The waste land
 

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Badiou e o elogio do amo

Declarar o amor significa passar do evento-encontro para o começo de uma construção de verdade. É fixar o acaso do encontro na forma de um começo. E o que começa a partir daí não raro dura tanto tempo, é tão carregado de novidade e experiência de mundo, que, retrospectivamente, não parece nem um pouco contingente e casual, como no princípio, mas praticamente uma necessidade. Assim o acaso é fixado: a absoluta contingência do encontro com alguém que eu não conhecia passa a assumir os ares de um destino. A declaração de amor é a passagem do acaso para o destino, e é por isso que ela é tão perigosa, tão carregada de uma espécie de terrível nervosismo. A declaração de amor, aliás, não acontece necessariamente uma única vez. Ela pode ser longa, difusa, confusa, complicada, declarada e redeclarada, e fadada a ser redeclarada. É o momento em que o acaso se fixa.O momento em que dizemos: vou declarar ao outro o que aconteceu, o encontro, os episódios desse encontro. Vou declarar que aconteceu aqui, pelo menos para mim, algo que me compromete. É isto: eu te amo.

terça-feira, 8 de abril de 2014

Se as ultima verba do professor Nietzsche terminam em afasia, os médicos verão nisso uma confirmação do princípio de realidade deles: Nietzsche ultrapassou os limites, torna-se incoerente, não fala mais, urra ou se cala

Ninguém vê que a ciência é ela mesma afásica. Bastaria que ela pronunciasse sua ausência de fundamentos e nenhuma realidade subsistiria - daí lhe vem um poder que a leva a calcular: é essa sua decisão que inventa a realidade. Ela calcula para não falar, sob pena de cair no vazio.

P. Klossowski, Nietzsche e o círculo vicioso (P. 20)

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Descobrimos (tarde da noite essa descoberta é inevitável) que os espelhos têm algo de monstruoso. Então Bioy Casares lembrou que um dos heresiarcas de Uqbar declarara que os espelhos e as cópulas são abomináveis, porque multiplicam o número de homens.

J. L. Borges, Tlön, Uqbar, Orbis Tertius

sábado, 29 de março de 2014

A possiblidade do impossível, que todo encontro amoroso, toda reformulação científica, toda invenção artística e todo passo da política da emancipação poẽm sob nossos olhos, é o único princípio - contra a ética do bem-viver, cujo o conteúdo real é decidir a morte - de uma ética das verdades.

Epígrafe do livro Ética Um ensaio sobre a consciência do mal, de Alain Badiou

segunda-feira, 24 de março de 2014

- O senhor nunca escreveu? (...)

- Nunca, e isso me inquieta. Pois não sou feliz a ponto de não precisar escrever. Tomei o propósito de, se em breve não sentir necessidade de fazê-lo, me suicidar por ser totalmente anormal! 

R. Musil, O homem sem qualidades (P. 449)


domingo, 9 de março de 2014

"novos paradigmas literários"

- A literatura como atividade crítica de linguagem. "Ao tentar delimitar o não limitável, a literatura precisou ser reconceituada e reproposta como atividade crítica e de linguagem, muito além de quaisquer referências ao mundo comunicativo."

- Eyben aponta que para Valery a obra ou o texto poético se estrutura a partir de uma forma pensante que se distingue da idealização ou inspiração. "A poesia seria, assim, uma espécie de 'tormento do pensamento' que faz passar - em certa velocidade pelas palavras - todas as sensações que são inteiramente dadas pela linguagem." De modo que "não há acidente poético", isto é, a inspiração ou a idealização que configura certo estado poético não é poesia. É preciso que se produza uma formalização da linguagem executada pelo poeta, que transforma o estado poético em poesia - um trabalho da linguagem. Nas palavras de Eyben, "não há acidente poético, mas antes o que existe é uma formalização desse estado a partir de uma abstração criada pelo poeta em termos escritos." - uma "abstração transversal das palavras"

- "Valery propõe sua visão da poética como uma arte da linguagem que seja compreendida como uma prática."

- A poesia seria uma forma de subverter a fala prática cotidiana (comunicativa, pragmática), "em que a comonicação pode ser suspendida e a frase simples, que depende da significação finita, é apagada em prol de uma complexidade que se dá musicalmente".

- Arte da linguagem ou a poesia como prática de linguagem expõem na materialidade do texto o inacabamento ou a incompletude relativa a linguagem, comprometendo o seu uso padrão. Ela "impõe um universo que é um estado: poeticidade"

- Valery associa os efeitos produzidos pela posia à voz, a fala e a musicalidade: "Poesia é uma dança: sistema de variações e criações infinitas que o discurso rítmico pode produzir; não tem objetivos finitos e comunicativos. "O sentido é tirado do poema pelas tramas do ritmo".

- Pensando em Mallarmé, Eyben afirma que a poesia "seria uma forma infinita (ou indefinida) de proporcionar a leitura do interpretante frente às potencialidades propostas pela linguagem."

- Eyben indica que para Michel Leiris, "o texto seria uma forma de escrever a experiência vital como um perigo: 'o que é para o torero o chifre acerado do touro'. A reflexão seria uma forma de entrega ao perigo, entrega do corpo à cerimônia e ao jogo que se compõe a corrida."

- Segundo Eyben Blanchot define a literatura como aquilo que diz a sua própria ausência, a literatura seria a busca de sua própria origem impossível:"Dessa forma, a experiência abissal da literatura é aquela de uma alteridade da linguagem, pois se posibilita apenas no plano enunciativo em que o interpretante impõe sua linguagem (como a de fora) e a obra impõe sua linguagem (como a de fora)." Novamente surge aqui os contornos de um quadro ou imagem de pensamento que concebe a literatura como forma de linguagem que problematiza a fala cotidiana pragmática ou a comunicação. "É o fora no fora que delimita o espaço literário e nunca o dentro do fundamento." Se o espaço literário se estabelece no fora e num espaço exterior a qualquer sujeito ou transcendência, sua formalização da linguagem é uma crítica ou transgressão das formas de pensamento e consequentemente dos modos de vida e das morais bem-estabelecidas.

- "Tornar-se obra, em termos do espaço literário, é propor-se em silêncio: negar a si mesma para começar a ser." A literatura como negação da obra, do acabamento, do sentido unívoco, do princípio de realidade: "Primeiramente a obra exige o esquecimento de si, para que só depois - em um golpe posterior - o saber da obra se manifeste como recusa da realidade e da referencialidade."

- "A essência da linguagem, para Blanchot, é aquela da discordância." Recusar a comuncicação e estabelecer contato com o vazio do texto. De modo que a concepção de literatura blanchotiana postula o dom, que é a "dádiva do desespero e da ausência". O que é posto em jodo na literatura ou na doação que ela executa é a possibilidade da experiência do nada e da angústia. Um não saber ou uma ignorância que se converte em um outro saber possível. O contato com o espaço literário exige o contato com a morte que precede a leitura, na medida em que o livro não lido é ainda um livro não escrito. Assim, "ler seria produzir o espaço propício para que aquela morte (que é o livro fechado) possa ser comreendida em um processo escrita de si mesmo [ao ler permitimos que o livro seja escrito] - que se poderia chamar meta-signo". 'Ler seria então, não escrever novamente o livro, mas fazer com que o livro se escreva ou seja escrito'. Consequentemente não há sujeito que escreve ou lê, mas apenas obra se produzindo a si mesma de maneira impessoal. "O nada que é o autor é assim suprimido - elocutoriamente - pela noção de livro". "A literatura enquanto ausência ou angústia poderia ser definida por essa leitura que dá a ela uma presença que é a conversão daquilo que ainda não está escrito"

- "O olhar para o literário deve ser uma penetração ou uma perscrutação da dúvida que reflete o sentido das opacidades." De modo que Blanchot "define a leitura como aquilo que está além ou aquém da compreensão". O espaço literário possibilita "retirar a necessária representabilidade e referência com a realidade concreta do mundo e conviver com a angústia da incompreensibilidade". Nesse sentido, Eyben afirma que a "leitura seria um exílio de si. Ou ainda a leitura seria uma ameaça da expatriação da realidade do leitor." (...) A presença em que o vazio (ou o abismo/impulso) violenta repetindo-se eternamente é o estatuto da escritura literária enquanto espaço de convívio - tensionado - entre leitor e autor"

- Retomando o texto foucaultiano "Linguagem e Literatura", Eyben ressalta a distinção operada por Foucault entre lingagem, obra e literatura:
1- A linguagem corresponde ao murmúrio incessante de tudo o que é dito e as relações da fala cotidiana ou pragmática, "em suma a linguagem é tanto o fato das palavras acumuladas na história quanto o próprio sistema da língua".
2- No interior da língua a obra é uma configuração específica da linguagem que cria seu próprio espaço dando "espessura à transparência dos signos e das palavras."
3- A literatura, por sua vez não é exatamente nem a obra, nem a linguagem, mas se constitui num espaço improvável entre linguagem e obra. "É de certo modo, um terceiro termo, o vértice de um triângulo por onde passa a relação da linguagem com a obra e da obra com a linguagem." A literatura seria então aquilo que confunde a transparência da linguagem e a opacidade da obra. A literatura como 'distância aberta no interior da linguagem'.

- "O ato literário seria (...) uma espécie de revelação daquilo que se quer esconder da realidade. A literatura moderna teria para si a figura do interdito, em que o espaço do livro deva ser transgredido e massacrado por noções como pastiche e paródia."

- "Deixa-se no espaço literário, pela transgressão, o vazio do sentido". De modo que a literatura evidencia o sentido como efeito de superfície da linguagem. Assim, o sentido é entendido como precário ou sem consistência própria. Na literatura "tudo se cala ou fala como aniquilamento e desaparecimento do sentido."

- Ao conjurar a representação a literatura se apresenta como problema de metalinguagem.

- Eyben ressalta em Barthes: a literatura "como 'trapaça' do discurso do poder"

- Em Barthes surge a distinção fundamental entre obra e texto: obra como substância, ocupa um lugar físico, o texto estaria mais próximo da abstração e da metodologia. A obra como acabamento, texto como travessia.

- "Por oposição a obra o texto define-se na enunciação, na tentativa de captar o discurso do outro, não obedece regras prefixadas de uma racionalidade gramatical apenas." O texto só pode sustentar-se no paradoxo: "deve admitir o discurso do mesmo e o discurso do outro como ele pŕoprio" 

- Enquanto a obra se prende ao espaço tradicional do sentido e da totalidade o texto postula o deslizamento do sentido e a sua errância.

- "O texto é plural": não se deixa apreender em um sentido unívoco, opera a partir de ambiguidades e paradoxos irredutíveis. "Não interessa ao texto que se resolvam as ambiguidades, pois as mesmas são sempre consequências diretas da textura dos significantes."

- A obra exige autoridade autoral, a qual garante origem e sentido a obra. O texto se apresenta 'por si, lê-se sem inscrição do Pai': "Não há garantias textuais, pois não há sujeitos garantidos pelo papel que inscreve o texto".

- A obra é consumo, o texto se dá como prática de escritura: "imensurável e não capitalizável".

- O "pazer do texto" em Barthes: O texto é capaz de agir provocando os sentidos e o gozo possível da escrita/leitura - "uma ruptura com as possibilidades de explicação".

- Em Lacan, Eyben fala da Litura, isto é, a parte que se apagou em um escrito, a mancha ou o borrão. Entender a escrita/escritura a partir da litura: "atitude necessariamente rasurada".

- "O furo no saber é o que comanda o efeito de letra rasurada que é o texto literário como lapso".

- Ao Ler Derrrida, Eyben retoma o texto ches cos'è la poesia, destacando a metáfora do ouriço para a definição de poesia, a qual indica o paradoxo da poesia: "o animal é exposto a uma situação limite de produzir-se para o acidente ou, com os espinhos, defender-se de uma morte inevitável". De modo que a poesia coloca em jogo a possibilidade de ferir e de ser ferido. Na perspectiva derridiana a poesia define-se como "economia de memória e "coração" - o aprender de cor: "O 'tornar-se bola' do ouriço é um calar-se que faz do poético esse enrolar-se na memória e no coração". 

Piero Eyben - Escritura do Retorno Mallarmé, Joyce e Meta-signo - Literatura agora: novos paradigmas literários

sábado, 8 de março de 2014

A poesia segundo Derrida

 o poema como ditado, repetição, o que se "aprende de cor" ou "fotografia da festa em luto"

"Chamo poema aquuilo que ensina o coração, que inventa o coração, enfim aquilo que a palavra coração parece querer dizer e que na minha língua me parece difícil distinguir da palavra coração.

O ouriço. Ele se cega. Enrolado em bola, eriçado em espinhos, vulnerável e perigoso, calculista e inadaptado (pondo-se em bola, sentindo o perigo na estrada, ele expõe-se ao acidente). Não há poema sem acidente, não há poema que não se abra como uma ferida, mas que não abra ferida também.

O poema cai, benção, vinda do outro.

De agora em diante você chamará poema uma certa paixão da marca singular, da assinatura que repete sua dispersão, a cada vez, além do logos, ahumana, dificilmente doméstica, nem mesmo reapropriável na família do sujeito: um animal convertido enrolado em bola, voltado para o outro e para si, uma coisa em suma modesta, discreta, próxima da terra, a humildade a que você dá um sobrenome, transportando-se com isso ao nome, um ouriço catacrético, todas as flechas para fora, quando esse cego sem idade ouve mas não vê a morte vir".