Declarar o amor significa passar do
evento-encontro para o começo de uma construção de verdade. É fixar o
acaso do encontro na forma de um começo. E o que começa a partir daí não
raro dura tanto tempo, é tão carregado de novidade e experiência de
mundo, que, retrospectivamente, não parece nem um pouco contingente e
casual, como no princípio, mas praticamente uma necessidade. Assim o
acaso é fixado: a absoluta contingência do encontro com alguém que eu
não conhecia passa a assumir os ares de um destino. A declaração de
amor é a passagem do acaso para o destino, e é por isso que ela é tão
perigosa, tão carregada de uma espécie de terrível nervosismo. A
declaração de amor, aliás, não acontece necessariamente uma única vez.
Ela pode ser longa, difusa, confusa, complicada, declarada e
redeclarada, e fadada a ser redeclarada. É o momento em que o acaso se
fixa.O momento em que dizemos: vou declarar ao outro o que aconteceu, o
encontro, os episódios desse encontro. Vou declarar que aconteceu aqui,
pelo menos para mim, algo que me compromete. É isto: eu te amo.
quinta-feira, 10 de abril de 2014
terça-feira, 8 de abril de 2014
Se as ultima verba do professor Nietzsche terminam em afasia, os médicos verão nisso uma confirmação do princípio de realidade deles: Nietzsche ultrapassou os limites, torna-se incoerente, não fala mais, urra ou se cala
Ninguém vê que a ciência é ela mesma afásica. Bastaria que ela pronunciasse sua ausência de fundamentos e nenhuma realidade subsistiria - daí lhe vem um poder que a leva a calcular: é essa sua decisão que inventa a realidade. Ela calcula para não falar, sob pena de cair no vazio.
P. Klossowski, Nietzsche e o círculo vicioso (P. 20)
segunda-feira, 7 de abril de 2014
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