quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Tudo Foi Feito Para Mim

Uma das poucas coisas da infância no Meio-Oeste que ainda me fazem falta é essa convicção bizarra, iludida porém inabalável, de que tudo ao meu redor existia única e exclusivamente Para Mim. Serei eu o único a ter possuído essa sensação profunda e estranha quando criança? - de que tudo exterior a mim existia apenas na medida em que me afetava de alguma maneira? - de que todas as coisas eram de alguma maneira, por via de alguma atividade adulta obscura, especialmente dispostas ao meu favor? Alguém mais se identifica com essa memória? A criança deixa um quarto e agora tudo naquele quarto, assim que ela não está mais lá para ver, se dissolve numa espécie de vácuo de potencial ou então (minha teoria pessoal da infância) é levado embora por adultos escondidos e armazenado até que uma nova entrada da criança no quarto ponha tudo de volta em serviço ativo. Será que era insanidade? Era radicalmente egocêntrica, é claro, essa convicção, e consideravelmente paranoica. Fora a responsabilidade que implicava: se o mundo inteiro se dissolvia e se desfazia cada vez que eu piscava, o que aconteceria se meus olhos não abrissem?
(...)
Além disso essa noção do mundo como sendo único e exclusivo Para-Ela talvez explique por que eventos públicos ritualísticos fazem uma criança se empolgar até perder a cabeça. Feriados, desfiles, viagens de verão, eventos esportivos. Feiras. Aqui a empolgação maníaca da criança é na verdade a exultação do seu próprio poder: o mundo agora existirá não apenas Para-Ela mas se mostrará Especial-Para-Ela. Cada faixa pendurada, cada balão, cada estande decorado, cada peruca de palhaço, cada volta de parafuso na montagem de uma tenda- cada detalhe vistoso significa, remete. Transcorrendo na direção do Evento Especial, o próprio tempo se alterará do sistema anular de instantes e trechos da criança para a cronologia linear mais típica do adulto - o conceito de aguardar com expectativa - com momentos sucessivos sendo riscados rumo a um télos marcado com uma cruz no calendário, um novo tipo de Final gratificante e apocalíptico, a hora zero da Ocasião Especial, Especial, do Espetáculo extravagante e em todos os sentidos excepcional que a criança engendrou e que é, ela intui na mesma profundidade desarticulada da sua necessidade de luz noturna, unicamente Para-Ela, singular no centro absoluto. 

David Foster Wallace, Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo

terça-feira, 24 de setembro de 2013

terça-feira, 17 de setembro de 2013

A estética de Jed Martin

Portanto, a obra que ocupou os últimos anos da vida de Jed Martin pode ser vista - é a interpretação mais horizontal - como uma meditação nostálgica sobre o fim da era industrial na Europa e, mais genericamente, sobre o caráter perecível e transitório de toda indústria humana. Entretanto, essa interpretação é insuficiente para explicar o mal-estar que nos toma ao vermos aqueles patéticos bonequinhos tipo Playmobil, perdidos em meio a uma cidade futurista abstrata e imensa, cidade que, por sua vez, se corrói e se dissocia, depois parece aos poucos se esparramar pela imensidão vegetal que se estende ao infinito. E tampouco o sentimento de desolação que nos invade à medida que as representações dos seres humanos que acompanharam Jed Martin ao longo de sua vida terrena se desagregam sob o efeito das intempéries, depois se decompõem e dividem em retalhos, parecendo, nos últimos vídeos, constituírem o símbolo do aniquilamento generalizado da espécie humana. Elas afundam, parecem, por um instante, debater-se, antes de se verem sufocadas pelas camadas superpostas das plantas. Depois tudo se acalma, não há senão a relva agitada pelo vento. O triunfo da vegetação é total.

Michel Houellebecq, O Mapa e o Território


segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Essa noite não te vestirei com as roupas de Paris
mas
no máximo
com a fumaça do meu cigarro

Vladimir Maiakovski
My love is asking me if this poem is for the young ladies

Maybe.
I don't know.
But I tell you what.
This spring I buy you a canary.
Then, I call it Love.
Now listen, baby.
It's not about let it fly.
It's not about put it in a cage.
It's about death.
Canaries die.

Felipe G. A. Moreira

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Sobre poesia e materialismo - conversa entre Álvaros de Campos e Alberto Caeiro

Referia-me ele, aliás desenvolvendo o que diz num dos poemas de "O Guardador de Rebanhos", que não sei quem lhe tinha chamado em tempos 'poeta materialista'. Sem achar a frase justa, porque o meu mestre Caeiro não é definível com qualquer frase justa, disse-lhe, contudo, que não era absurdo de todo a atribuição. E expliquei-lhe, mais ou menos bem, o que é o materialismo clássico. Caeiro ouviu-me com uma atenção dolorosa, e depois disse-me bruscamente:

'Mas isso o que é é muito estúpido. Isso é uma coisa de padres sem religião, e portanto sem desculpa nenhuma.'

Fiquei atônito, e apontei-lhe várias semelhanças entre o materialismo e a doutrina dele, salva a poesia desta última. Caeiro protestou.

'Mas isso a que V. chama poesia é que é tudo. Nem é poesia: é ver. Essa gente materialista é cega. V. diz que eles dizem que o espaço é infinito. Onde é que eles viram isso no espaço?'

E, eu, desnorteado. 'Mas V. não concebe o espaço como infinito? Você não pode conceber o espaço como infinito?'

'Homem', disse eu, 'suponha um espaço. Para além desse espaço há mais espaço, para além desse mais, e depois mais, e mais, e mais... Não acaba...'

"Por que?" disse o meu mestre Caeiro.

Fiquei num terramoto mental. 'Suponha que acaba', gritei. 'O que há depois?'

'Se acaba, depois não há nada', respondeu.

Este gênero de argumentação cumulativamente infantil e feminina, e portanto irrespondível, atou-me o cérebro durante uns momentos.

'Mas V. concebe isso? Deixei cair por fim.

Se concebo o que? Uma coisa ter limites? Pudera! O que não tem limites não existe. Existir é haver outra coisa qualquer, e portanto cada coisa ser limitada. O que é que custa conceber que uma coisa é uma coisa, e não está sempre a ser uma outra coisa que está mais adiante?'

Nessa altura senti carnalmente que estava discutindo, não com outro homem, mas com outro universo. Fiz uma última tentativa, um desvio que me obriguei a sentir legítimo.

'Olhe, Caeiro... Considere os números... Onde é que acabam os números? Tomemos qualquer número - 34,  por exemplo. Para além dele temos, 35, 36, 37, 38, e assim sem poder parar. Não há um número grande que não haja um número maior...'

'Mas isso são só números', protestou o meu mestre Caeiro.

E depois acrescentou, olhando-me com uma formidável infância:
'O que é o 34 na Realidade?'

Fernando Pessoa, Poemas Escolhidos

domingo, 12 de maio de 2013

como pode?

     Soa estranho, esta manhã,
tudo o que sempre foi meu, como pode?
     Como pode que esse som lá fora,
os sons da vida, a voz de todo dia,
     pareça ficção científica?

     Como pode que esta palavra,
que já vi mil vezes e mil vezes disse,
     não signifique nada,
a não ser que o dia, a noite, a madrugada,
     a não ser que tudo não é nada disso?

     Pode que eu já não seja mais o mesmo.
Pode a luz, pode ser, pode céu e pode quanto.
     Pode tudo o que puder poder.
Só não pode ser tanto.

Paulo Leminski, Ais ou menos (Toda Poesia)