quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Virtuosismo

Enquanto ele amaciava com claras de ovo os seios eréteis de Amaranta Úrsula, ou suavizava com gordura de coco as suas coxas elásticas e o seu ventre de pêssego, ela brincava de boneca com a portentosa criatura de Aureliano e pintava-lhe olhos de palhaço com batom e bigodes de turco com lápis de sobrancelhas e armava-lhe laços de organza e chapeuzinhos de papel prateado, Uma noite se lambuzaram dos pés a cabeça com pêssegos em calda, lamberam-se como cães e se amaram como loucos no chão da varanda, e foram acordados por uma torrente de formigas carnívoras que se dispunham a devorá-los vivos.

García Márquez, Cem anos de solidão. P. 355.

domingo, 30 de agosto de 2015

Nada

não narrarei a história
não descreverei o cenário
não contarei o tesouro de sensações
não desfiarei causas
nem nada que ofenda o acaso
o deus dos encontros

Paula Glenadel, Quase uma arte. P. 60.

Planos

algumas sementes da Austrália
prevêem o fogo
e se preparam para sobreviver
o fogo está em seus planos,
se é que os tem

ele vem abrí-las para que germinem
na floresta devastada
então podem crescer sem disputar
o sol com as enormes árvores
e a terra com as grossas raízes

isto me disse alguém uma vez
era suíço
estava leibniziano

Paula Glenadel, Quase uma arte. P. 57.

Visto Numa panela

E se as pessoas fossem macarrões, penne, por exemplo, onde elas se juntam ficaria um lado duro, na interface dos dois. Mas quem tem coragem de separar dois penne rodopiando na água fervente? É preciso não ter pena das coisas. 

Paula Glenadel, Quase uma arte. P. 31.

sábado, 22 de agosto de 2015

Potência ciclônica

Uma tarde, quando todos dormiam a sesta, não aguentou mais e foi ao seu quarto. Encontrou-o de cuecas, acordado, estendido na rede que pendurara nos ganchos com cabos de amarrar navio. Impressionou-a tanto a sua enorme nudez sarapintada que teve o ímpeto de retroceder. "Perdão", se desculpou. "Eu não sabia que você estava aqui." Mas abaixou o tom de voz para não acordar ninguém. "Vem cá", disse ele. Rebeca obedeceu. Deteve-se junto da rede, suando gelo, sentindo que se formavam nós nas tripas enquanto José Arcadio lhe acariciava os tornozelos com a polpa dos dedos, e depois a barriga das pernas e depois as coxas, murmurando: "ah, maninha; a maninha." Ela teve que fazer um esforço sobrenatural para não morrer quando uma potência ciclônica, assombrosamente regulada, levantou-a pela cintura e despojou-a de sua intimidade com três patadas, e esquartejou-a como a um passarinho. Conseguiu dar graças a Deus por ter nascido, antes de perder a consciência no prazer inconcebível daquela dor insuportável, chapinhando no lago fumegante da rede que absorveu como um mata-borrão a explosão de seu sangue. 

G. García Márquez, Cem anos de solidão

quinta-feira, 26 de março de 2015

e então exultei: porque 
as coisas, as pessoas, os livros, os trajectos, as palavras, tudo
                                                                                          à volta
são segredos de um segredo, e só isso os sustenta no vazio 
                                                                                do tempo


Herberto Helder, Servidões