quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Até então, para mim, paredes eram feitas de livros, sem o seu suporte desabariam casas como a minha, que até no banheiro e na cozinha tinha estantes do teto ao chão. E era nos livros que eu me escorava, desde muito pequeno, nos momentos de perigo real ou imaginário, como ainda hoje nas alturas grudo as costas na parede ao sentir vertigem. E quando não havia ninguém por perto eu passava horas a andar de lado rente às estantes, sentia certo prazer em roçar a espinha de livro em livro. também gostava de esfregar as bochechas nas lombadas de couro de uma coleção que, mais tarde, quando já me batiam no peito identifiquei como os sermões do padre António Vieira. e, numa prateleira acima dos sermões, li aos quatro anos de idade minha primeira palavra: Gogol. Até os nove, dez, onze anos, até o nível da quarta ou quinta prateleira, durante toda minha infância mantive essa ligação sensual com os livros.

Chico Buarque, O irmão alemão
Às vezes parece
que estamos no centro da festa
No entanto
no centro da festa não há ninguém
No centro da festa está o vazio
Mas no centro do vazio há outra festa.



Roberto Juarroz