Até
então, para mim, paredes eram feitas de livros, sem o seu suporte
desabariam casas como a minha, que até no banheiro e na cozinha tinha
estantes do teto ao chão. E era nos livros que eu me escorava, desde
muito pequeno, nos momentos de perigo real ou imaginário, como ainda
hoje nas alturas grudo as costas na parede ao sentir vertigem. E quando
não havia ninguém por perto eu passava horas a andar de lado rente às
estantes, sentia certo prazer em roçar a espinha de livro em livro.
também gostava de esfregar as bochechas nas lombadas de couro de uma
coleção que, mais tarde, quando já me batiam no peito identifiquei como
os sermões do padre António Vieira. e, numa prateleira acima dos
sermões, li aos quatro anos de idade minha primeira palavra: Gogol. Até
os nove, dez, onze anos, até o nível da quarta ou quinta prateleira,
durante toda minha infância mantive essa ligação sensual com os livros.
Chico Buarque, O irmão alemão