Se chamamos de liberdade não só a potência de subtrair-se ao poder, mas também e sobretudo a de não submeter ninguém, não pode então haver liberdade fora da linguagem. Infelizmente a linguagem humana é sem exterior: é um lugar fechado. Só se pode sair dela pelo preço do impossível: pela singularidade mística, tal como a descreve kiekegaard (...) ou então pelo amen nietzschiano, que é como uma sacudida jubilatória dada ao servilismo da língua. Mas a nós, que não somos nem cavaleiros da fé nem super-homens, só resta por assim dizer, trapacear com a língua, trapacear a língua Essa trapaça salutar, essa esquiva, esse logro magnífico que permite ouvir a língua fora do poder, no esplendor de uma revolução permanente da linguagem, eu a chamo, quanto a mim: literatura.
(Roland Barthes, Aula)
(Roland Barthes, Aula)