sábado, 29 de setembro de 2012

liberdade e literatura

Se chamamos de liberdade não só a potência de subtrair-se ao poder, mas também e sobretudo a de não submeter ninguém, não pode então haver liberdade fora da linguagem. Infelizmente a linguagem humana é sem exterior: é um lugar fechado.  Só se pode sair dela pelo preço do impossível: pela singularidade mística, tal como a descreve kiekegaard (...) ou então pelo amen nietzschiano, que é como uma sacudida jubilatória dada ao servilismo da língua. Mas a nós, que não somos nem cavaleiros da fé nem super-homens, só resta por assim dizer, trapacear com a língua, trapacear a língua Essa trapaça salutar, essa esquiva, esse logro magnífico que permite ouvir a língua fora do poder, no esplendor de uma revolução permanente da linguagem, eu a chamo, quanto a mim: literatura.

(Roland Barthes, Aula)

o fascismo da língua

O poder é o parasita de um organismo trans-social, ligado à história inteira do homem, e não somente à sua história política, histórica. Esse objeto em que se inscreve o poder, desde toda eternidade humana, é: a linguagem - ou para ser mais preciso, sua expressão obrigatória: a língua.

A linguagem é uma legislação, a língua é seu código. Não vemos o poder que reside na língua, porque esquecemos que toda língua é uma classificação, e que toda classificação é opressiva: ordo quer dizer, ao mesmo tempo, repartição e cominação. Jákobson mostrou que um idioma se define menos pelo que ele permite dizer, do que por aquilo que ele obriga a dizer (...) Assim, por sua própria estrutura, a língua implica uma relação fatal de alienação. Falar, e com maior razão discorrer, não é comunicar, como se repete com demasiada frequência, é sujeitar (...)

Mas a língua, como desempenho de toda linguagem, não é nem reacionária, nem progressista; ela é simplesmente: fascista; pois o fascismo não é impedir de dizer, é obrigar a dizer.

Assim que ela é proferida, mesmo que na intimidade mais profunda do sujeito, a língua entra a serviço de um poder.

(Roland Barthes, Aula)

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

O diálogo entre o sim e o não

Não: 
Tudo já foi dito - sobre o que era importante e simples de dizer - nos milênios em que os homens passaram pensando e se esforçando. Já foi dito tudo sobre o que era profundo em relação à elevação do ponto de vista, isto é, abrangente e extenso ao mesmo tempo. Hoje em dia, só nos cabe repetir. Só restam alguns poucos detalhes ínfimos ainda inexplorados. Ao homem atual só resta preencher os vazios com uma algaravia de detalhes.

Sim: 
Sim? Que tudo já foi dito, que não há nada a dizer, sabe-se, percebe-se. Mas o que menos se percebe é que essa evidência confere à linguagem um estatuto estranho, até inquietante, que a redime. As palavras salvaram-se, afinal, deixaram de viver.

(Marcel Maniere citado por Vila-Matas, Bartleby e companhia)

palavra-(caos)

O caos demoníaco de cada palavra isolada, de cada conhecimento, de cada coisa (...) Oh, cada um está ameaçado pelas palavras indomáveis e seus tentáculos, pela ramagem das palavras, pelas palavras de ramo que se enredando entre si o enredam, que crescem disparadas, cada uma para seu lado, e tornando a retorcerem-se umas nas outras, demoníacas em sua individualização, palavras que se entrelaçam na trama do mundo, na trama dos tempos, incompreensíveis e impenetráveis em sua rugiente mudez. (Hermann Broch citado por Vila-Matas, Bartleby e companhia)

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

literatura do não


Talvez fosse necessário dizer algo mais sobre isso, sobre o não escrever. Muita gente me pergunta isso, eu me pergunto. E perguntar-me por que não escrevo inevitavelmente desemboca em outra inquisição muito mais inquietante: por que escrevi? Afinal de contas, o normal é ler. Minhas respostas favoritas são duas. Uma, que minha poesia consistiu - sem que eu soubesse - em uma tentativa de inventar uma identidade para mim; inventada, e assumida, já não tenho vontade de colocar-me inteiro em cada poema, que era o que me apaixonava quando os escrevia. Outra, que tudo foi um equívoco: eu pensava que queria ser poeta, mas no fundo queria ser poema. E em parte, na pior parte, eu consegui isso; como qualquer poema medianamente bem-feito, agora careço de liberdade interior, sou todo necessidade e submissão interna a esse atormentado tirano, a esse Big Brother insone, onisciente e ubíquo: Eu. Metade Caliban, metade Narciso, temo-o sobretudo quando o escuro pergunta-me junto a uma sacada aberta: 'Que faz um rapaz de 1950 como você em um ano indiferente como este?' All the rest is silence. (E. Vila-Matas citando Jaime gil de Biedma, Bartleby e companhia)