A possiblidade do impossível, que todo encontro amoroso, toda reformulação científica, toda invenção artística e todo passo da política da emancipação poẽm sob nossos olhos, é o único princípio - contra a ética do bem-viver, cujo o conteúdo real é decidir a morte - de uma ética das verdades.
Epígrafe do livro Ética Um ensaio sobre a consciência do mal, de Alain Badiou
sábado, 29 de março de 2014
segunda-feira, 24 de março de 2014
domingo, 9 de março de 2014
"novos paradigmas literários"
- A literatura como atividade crítica de linguagem. "Ao tentar delimitar o não limitável, a literatura precisou ser reconceituada e reproposta como atividade crítica e de linguagem, muito além de quaisquer referências ao mundo comunicativo."
- Eyben aponta que para Valery a obra ou o texto poético se estrutura a partir de uma forma pensante que se distingue da idealização ou inspiração. "A poesia seria, assim, uma espécie de 'tormento do pensamento' que faz passar - em certa velocidade pelas palavras - todas as sensações que são inteiramente dadas pela linguagem." De modo que "não há acidente poético", isto é, a inspiração ou a idealização que configura certo estado poético não é poesia. É preciso que se produza uma formalização da linguagem executada pelo poeta, que transforma o estado poético em poesia - um trabalho da linguagem. Nas palavras de Eyben, "não há acidente poético, mas antes o que existe é uma formalização desse estado a partir de uma abstração criada pelo poeta em termos escritos." - uma "abstração transversal das palavras"
- "Valery propõe sua visão da poética como uma arte da linguagem que seja compreendida como uma prática."
- A poesia seria uma forma de subverter a fala prática cotidiana (comunicativa, pragmática), "em que a comonicação pode ser suspendida e a frase simples, que depende da significação finita, é apagada em prol de uma complexidade que se dá musicalmente".
- Arte da linguagem ou a poesia como prática de linguagem expõem na materialidade do texto o inacabamento ou a incompletude relativa a linguagem, comprometendo o seu uso padrão. Ela "impõe um universo que é um estado: poeticidade"
- Valery associa os efeitos produzidos pela posia à voz, a fala e a musicalidade: "Poesia é uma dança: sistema de variações e criações infinitas que o discurso rítmico pode produzir; não tem objetivos finitos e comunicativos. "O sentido é tirado do poema pelas tramas do ritmo".
- Pensando em Mallarmé, Eyben afirma que a poesia "seria uma forma infinita (ou indefinida) de proporcionar a leitura do interpretante frente às potencialidades propostas pela linguagem."
- Eyben indica que para Michel Leiris, "o texto seria uma forma de escrever a experiência vital como um perigo: 'o que é para o torero o chifre acerado do touro'. A reflexão seria uma forma de entrega ao perigo, entrega do corpo à cerimônia e ao jogo que se compõe a corrida."
- Segundo Eyben Blanchot define a literatura como aquilo que diz a sua própria ausência, a literatura seria a busca de sua própria origem impossível:"Dessa forma, a experiência abissal da literatura é aquela de uma alteridade da linguagem, pois se posibilita apenas no plano enunciativo em que o interpretante impõe sua linguagem (como a de fora) e a obra impõe sua linguagem (como a de fora)." Novamente surge aqui os contornos de um quadro ou imagem de pensamento que concebe a literatura como forma de linguagem que problematiza a fala cotidiana pragmática ou a comunicação. "É o fora no fora que delimita o espaço literário e nunca o dentro do fundamento." Se o espaço literário se estabelece no fora e num espaço exterior a qualquer sujeito ou transcendência, sua formalização da linguagem é uma crítica ou transgressão das formas de pensamento e consequentemente dos modos de vida e das morais bem-estabelecidas.
- "Tornar-se obra, em termos do espaço literário, é propor-se em silêncio: negar a si mesma para começar a ser." A literatura como negação da obra, do acabamento, do sentido unívoco, do princípio de realidade: "Primeiramente a obra exige o esquecimento de si, para que só depois - em um golpe posterior - o saber da obra se manifeste como recusa da realidade e da referencialidade."
- "A essência da linguagem, para Blanchot, é aquela da discordância." Recusar a comuncicação e estabelecer contato com o vazio do texto. De modo que a concepção de literatura blanchotiana postula o dom, que é a "dádiva do desespero e da ausência". O que é posto em jodo na literatura ou na doação que ela executa é a possibilidade da experiência do nada e da angústia. Um não saber ou uma ignorância que se converte em um outro saber possível. O contato com o espaço literário exige o contato com a morte que precede a leitura, na medida em que o livro não lido é ainda um livro não escrito. Assim, "ler seria produzir o espaço propício para que aquela morte (que é o livro fechado) possa ser comreendida em um processo escrita de si mesmo [ao ler permitimos que o livro seja escrito] - que se poderia chamar meta-signo". 'Ler seria então, não escrever novamente o livro, mas fazer com que o livro se escreva ou seja escrito'. Consequentemente não há sujeito que escreve ou lê, mas apenas obra se produzindo a si mesma de maneira impessoal. "O nada que é o autor é assim suprimido - elocutoriamente - pela noção de livro". "A literatura enquanto ausência ou angústia poderia ser definida por essa leitura que dá a ela uma presença que é a conversão daquilo que ainda não está escrito"
- "O olhar para o literário deve ser uma penetração ou uma perscrutação da dúvida que reflete o sentido das opacidades." De modo que Blanchot "define a leitura como aquilo que está além ou aquém da compreensão". O espaço literário possibilita "retirar a necessária representabilidade e referência com a realidade concreta do mundo e conviver com a angústia da incompreensibilidade". Nesse sentido, Eyben afirma que a "leitura seria um exílio de si. Ou ainda a leitura seria uma ameaça da expatriação da realidade do leitor." (...) A presença em que o vazio (ou o abismo/impulso) violenta repetindo-se eternamente é o estatuto da escritura literária enquanto espaço de convívio - tensionado - entre leitor e autor"
- Retomando o texto foucaultiano "Linguagem e Literatura", Eyben ressalta a distinção operada por Foucault entre lingagem, obra e literatura:
1- A linguagem corresponde ao murmúrio incessante de tudo o que é dito e as relações da fala cotidiana ou pragmática, "em suma a linguagem é tanto o fato das palavras acumuladas na história quanto o próprio sistema da língua".
2- No interior da língua a obra é uma configuração específica da linguagem que cria seu próprio espaço dando "espessura à transparência dos signos e das palavras."
3- A literatura, por sua vez não é exatamente nem a obra, nem a linguagem, mas se constitui num espaço improvável entre linguagem e obra. "É de certo modo, um terceiro termo, o vértice de um triângulo por onde passa a relação da linguagem com a obra e da obra com a linguagem." A literatura seria então aquilo que confunde a transparência da linguagem e a opacidade da obra. A literatura como 'distância aberta no interior da linguagem'.
- "O ato literário seria (...) uma espécie de revelação daquilo que se quer esconder da realidade. A literatura moderna teria para si a figura do interdito, em que o espaço do livro deva ser transgredido e massacrado por noções como pastiche e paródia."
- "Deixa-se no espaço literário, pela transgressão, o vazio do sentido". De modo que a literatura evidencia o sentido como efeito de superfície da linguagem. Assim, o sentido é entendido como precário ou sem consistência própria. Na literatura "tudo se cala ou fala como aniquilamento e desaparecimento do sentido."
- Ao conjurar a representação a literatura se apresenta como problema de metalinguagem.
- Eyben ressalta em Barthes: a literatura "como 'trapaça' do discurso do poder"
- Em Barthes surge a distinção fundamental entre obra e texto: obra como substância, ocupa um lugar físico, o texto estaria mais próximo da abstração e da metodologia. A obra como acabamento, texto como travessia.
- "Por oposição a obra o texto define-se na enunciação, na tentativa de captar o discurso do outro, não obedece regras prefixadas de uma racionalidade gramatical apenas." O texto só pode sustentar-se no paradoxo: "deve admitir o discurso do mesmo e o discurso do outro como ele pŕoprio"
- Enquanto a obra se prende ao espaço tradicional do sentido e da totalidade o texto postula o deslizamento do sentido e a sua errância.
- "O texto é plural": não se deixa apreender em um sentido unívoco, opera a partir de ambiguidades e paradoxos irredutíveis. "Não interessa ao texto que se resolvam as ambiguidades, pois as mesmas são sempre consequências diretas da textura dos significantes."
- A obra exige autoridade autoral, a qual garante origem e sentido a obra. O texto se apresenta 'por si, lê-se sem inscrição do Pai': "Não há garantias textuais, pois não há sujeitos garantidos pelo papel que inscreve o texto".
- A obra é consumo, o texto se dá como prática de escritura: "imensurável e não capitalizável".
- O "pazer do texto" em Barthes: O texto é capaz de agir provocando os sentidos e o gozo possível da escrita/leitura - "uma ruptura com as possibilidades de explicação".
- Em Lacan, Eyben fala da Litura, isto é, a parte que se apagou em um escrito, a mancha ou o borrão. Entender a escrita/escritura a partir da litura: "atitude necessariamente rasurada".
- "O furo no saber é o que comanda o efeito de letra rasurada que é o texto literário como lapso".
- Ao Ler Derrrida, Eyben retoma o texto ches cos'è la poesia, destacando a metáfora do ouriço para a definição de poesia, a qual indica o paradoxo da poesia: "o animal é exposto a uma situação limite de produzir-se para o acidente ou, com os espinhos, defender-se de uma morte inevitável". De modo que a poesia coloca em jogo a possibilidade de ferir e de ser ferido. Na perspectiva derridiana a poesia define-se como "economia de memória e "coração" - o aprender de cor: "O 'tornar-se bola' do ouriço é um calar-se que faz do poético esse enrolar-se na memória e no coração".
Piero Eyben - Escritura do Retorno Mallarmé, Joyce e Meta-signo - Literatura agora: novos paradigmas literários
sábado, 8 de março de 2014
A poesia segundo Derrida
o poema como ditado, repetição, o que se "aprende de cor" ou "fotografia da festa em luto"
"Chamo poema aquuilo que ensina o coração, que inventa o coração, enfim aquilo que a palavra coração parece querer dizer e que na minha língua me parece difícil distinguir da palavra coração.
O ouriço. Ele se cega. Enrolado em bola, eriçado em espinhos, vulnerável e perigoso, calculista e inadaptado (pondo-se em bola, sentindo o perigo na estrada, ele expõe-se ao acidente). Não há poema sem acidente, não há poema que não se abra como uma ferida, mas que não abra ferida também.
O poema cai, benção, vinda do outro.
De agora em diante você chamará poema uma certa paixão da marca singular, da assinatura que repete sua dispersão, a cada vez, além do logos, ahumana, dificilmente doméstica, nem mesmo reapropriável na família do sujeito: um animal convertido enrolado em bola, voltado para o outro e para si, uma coisa em suma modesta, discreta, próxima da terra, a humildade a que você dá um sobrenome, transportando-se com isso ao nome, um ouriço catacrético, todas as flechas para fora, quando esse cego sem idade ouve mas não vê a morte vir".
"Chamo poema aquuilo que ensina o coração, que inventa o coração, enfim aquilo que a palavra coração parece querer dizer e que na minha língua me parece difícil distinguir da palavra coração.
O ouriço. Ele se cega. Enrolado em bola, eriçado em espinhos, vulnerável e perigoso, calculista e inadaptado (pondo-se em bola, sentindo o perigo na estrada, ele expõe-se ao acidente). Não há poema sem acidente, não há poema que não se abra como uma ferida, mas que não abra ferida também.
O poema cai, benção, vinda do outro.
De agora em diante você chamará poema uma certa paixão da marca singular, da assinatura que repete sua dispersão, a cada vez, além do logos, ahumana, dificilmente doméstica, nem mesmo reapropriável na família do sujeito: um animal convertido enrolado em bola, voltado para o outro e para si, uma coisa em suma modesta, discreta, próxima da terra, a humildade a que você dá um sobrenome, transportando-se com isso ao nome, um ouriço catacrético, todas as flechas para fora, quando esse cego sem idade ouve mas não vê a morte vir".
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