segunda-feira, 30 de abril de 2012

a instalação de Vincent

ele realmente trabalhara no branco sobre o branco, e não havia mais nenhuma música, apenas alguns ligeiros tremores, como vibrações atmosféricas irregulares. Eu tinha a impressão de me mover no interior de um espaço lácteo,  isotrópico, que às vezes se condensava subitamente, em microformações granulosas - aproximando-me, distinguia montanhas, vales, paisagens inteiras que instantaneamente se emaranhavam e desapareciam, e o cenário voltava a mergulhar numa homogeneidade difusa, entrecortada pela oscilação de força. Estranhamente eu não via mais minhas mãos, nem parte alguma do meu corpo (...) Eu não ouvia sequer minha própria respiração, e compreendi então que me tornara o espaço; eu era o universo e era a existência fenomênica, as microestruturas faiscantes que apareciam, congelavam-se e depois se dissolviam no espaço faziam parte de mim mesmo, e eu sentia minhas, produzindo-se no interior do meu corpo, cada uma de suas aparições e cada uma de suas cessações. Fui então tomado por um intenso desejo de desaparecer, de derreter num nada luminoso, ativo, vibrante de potencialidades perpétuas; a luminosidade voltou a cegar, o espaço ao meu redor pareceu explodir e se difratar em parcelas de luz, mas não se tratava de um espaço no sentido habitual do termo, comportava dimensões múltiplas e todo outro tipo de percepção desaparecera - esse espaço não continha, no sentido habitual do termo, nada. (Michel houellebecq, A possibilidade de uma ilha)

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