terça-feira, 1 de maio de 2012

A revolta segundo Foucault


As insurreições pertencem a história. Mas de certa forma, lhes escapam. O movimento com que só um homem, um grupo, uma minoria ou todo um povo diz: "Não obedeço mais", e joga na cara de um poder que ele considera injusto o risco de sua vida - esse movimento me parece irredutível. Porque nenhum poder é capaz de torná-lo absolutamente impossível (...) E porque o homem que se rebela é em definitivo sem explicação, é preciso um dilaceramento que interrompa o fio da história e suas longas cadeias de razões, para que um homem possa, 'realmente', preferir o risco da morte à certeza de ter de obedecer (...)

Se as sociedades se mantém e vivem, isto é,  se os seus poderes não são 'absolutamente absolutos', é porque, por trás de todas as aceitações e coerções, mais além das ameaças, violências e persuasões, há a possibilidade desse momento em que nada mais se permuta na vida, em que os poderes nada mais podem e no qual, na presença dos patíbulos e das metralhadoras, os homens se insurgem (...)

Ninguém tem o direito de dizer: 'Revoltem-se por mim, trata-se da libertação final de todo homem'. Mas não concordo com aquele que dissesse: 'Inútil se insurgir, sempre será a mesma coisa'. Não se impõe a lei a quem arrisca a sua vida diante de um poder. Há ou não motivo para se revoltar? Deixemos em aberto a questão. Insurgir-se é um fato; é por isso que a subjetividade (não a dos grandes homens, mas a de qualquer um)  introduz na história e lhe dá o seu alento. Um delinquente arrisca sua vida contra castigos abusivos; um louco não suporta mais estar preso e decaído; um povo recusa o regime que o oprime. Isso não torna o primeiro inocente, não cura o outro, e não garante ao terceiro os dias prometidos. Ninguém é obrigado a achar que aquelas vozes confusas cantam melhor do que as outras e falam da essência do verdadeiro.Basta que elas existam e que tenham contra elas tudo o que se obstina em fazê-las calar, para que faça sentido escutá-las e buscar o que elas querem dizer. Questão de moral? Talvez. Questão de realidade, certamente. Todas as desilusões da história de nada valem: é por existirem tais vozes que o tempo dos homens não tem a forma da evolução, mas justamente a da 'história'. (Foucault, É inútil revoltar-se?)

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